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A vovó que vivia na poltrona…

Cristian Newman 2

Quando eu estava fazendo minha coleta de dados para o mestrado, uma das entrevistadas, uma idosa super conectada no ambiente virtual, me contou uma história muito interessante. Voltamos ao tempo de sua infância, época de ingenuidade, mas também de muita observação. Nos almoços de família, havia um momento áureo: a chegada da vovó. Todos a recebiam com beijos e abraços e depois de tantos mimos, a acomodavam na poltrona, no canto da sala. E ela por lá ficava. Sozinha, ouvindo toda a família interagir e conversar. Isso passava despercebido para todos, exceto para a nossa menina idosa da história. Ela disse que sempre a incomodava ver sua vovó no canto, solitária. Então pensou com ela mesma: “quando eu for velha não quero viver assim”.

Realmente ela é uma idosa super ativa, engajada em seu meio social, com boa saúde e situação financeira estável. É independente e autônoma. Mas quantos idosos ainda vivem na poltrona, no canto da sala?

Não quero dizer que a família é negligente, às vezes o que faltam são oportunidades de interação. Acho sim, que há familiares que se perguntam: o que eu converso com a minha avó ou até mesmo a minha bisavó? Já que a longevidade tem possibilitado o contato com mais gerações diferentes.

Também acho que esse não é só um problema da família. É um problema nosso. Porque estamos falando de suporte social e tudo aquilo que ele pode provocar: quem tem com quem contar vive mais feliz, tem melhor saúde, menos depressão, e se o suporte for intergeracional, também podemos colocar na lista de benefícios o aprendizado gerado com essa troca. Eu me educo para o envelhecimento. Com isso, eu passo a compreender melhor meu próprio processo de envelhecimento (que no caso já está acontecendo!).

Por ser um problema de todos, também é um problema meu. Por isso resolvi trazer essa reflexão, complementando com sugestões de trocas entre gerações.

- Lá vai a primeira dica, para ter conversa é bom ter história. Como as histórias surgem? Com momentos vividos juntos. Já pensou em convidar a sua avó para uma tarde no cinema? Ou então, se ela tem dificuldade de locomoção, um filminho com pipoca na sua própria casa?

Além do filme, também podem ser criadas outras oportunidades:

- Que tal um momento juntos na cozinha? Você pode ensinar uma receita ou aprender uma com ela.
- Uma volta na praça também pode mudar o dia. Contato com sol, natureza e conversa sobre a vida.

- Já pensou em jogar com a sua avó? Jogar pode ser um momento prazeroso. Eu mesma já criei dois jogos para motivar a interação, e não só isso, a estimulação cognitiva. Precisamos estar ativos e participantes!

Um dos jogos que criei, resolvi comercializar na Páscoa que passou. É um Mapa do tesouro da Páscoa para que adultos e idosos possam ter momentos de troca com as crianças. A personagem principal nesse jogo acaba sendo a criança, mas para que ela consiga atingir seu objetivo é necessária a orientação de alguém mais velho. O retorno que tive desse contato simples, mas tão lúdico, foi muito positivo.

O outro jogo chamado “DivertidaMente” ainda não comercializo, mas utilizo com os idosos que atendo, onde faço estimulação cognitiva. E é claro, com a minha própria avó. Logo abaixo tem uma foto da linda Dona Eulina (minha avó), com a minha prima Tuly que também é linda, jogando e se divertindo. O que tenho percebido é que o jogo gera vínculo, simplesmente pelo fato de ouvirmos o outro, rir com o outro, realmente fazer parte por alguns minutos da vida do outro e da nossa.

Dona Eulina e sua neta Tuly jogando DivertidaMente (Foto: Zolete Spricigo).

Dona Eulina e sua neta Tuly jogando DivertidaMente (Foto: Zolete Spricigo).

Você também pode inventar um jogo ou utilizar algum que já existe!

Não deixe que a falta de tempo seja um obstáculo. Afinal, o tempo é a gente que gerencia. Por isso, crie metas. Toda terça-feira à noite eu vou ligar para a minha avó ou uma vez por mês o nosso momento será no domingo à tarde, por exemplo.

Não desperdice esse encontro entre gerações. Há muito de você nela e muito dela em você. Faça parte de sua própria história.

Obs: esse texto também serve para o contato com seu avô, ok?!

Fonte: LinkedIn Tássia Chiarelli