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Seu Garcia: uma pessoa “tabuada”

Eu estava participando de uma competição entre startups, quando no meio de trezentas cabeças, avisto uma de coloração diferente. Ainda não sabia, mas era o Seu Garcia.

Todo mundo achou o máximo ter um idoso em um ambiente que geralmente é de convívio de pessoas mais jovens (espero que isso mude! Que haja maior diversidade de idade). O caso é que eu resolvi conversar com ele. Era um dia frio e lembro que Seu Garcia usava um cachecol que dava um ar elegante ao seu visual.

Me apresentei, disse que era gerontóloga e tinha um site que compartilhava histórias de vida inspiradoras. Vendo ele naquele desafio, tinha o palpite de que seria um forte candidato para eu entrevistar. Ele topou! Trocamos cartões e lá fui eu conhecer sua oficina de criatividade, que ficava nos fundos da sua residência.

Quando combinamos o encontro não fazia ideia do quanto estávamos distantes. Mas o que todo empreendedor tem em comum é a persistência. Rodei São Paulo com os mais variados transportes públicos e fiz uma bela caminhada. Quando vi estava lá. Em frente ao lar do Seu Garcia.

Mal sabia que Seu Garcia não seria apenas uma história se transformando em conteúdo virtual (o que já é muito significante em minha vida), mas ele também se tornaria uma referência, um amigo, um avô adotivo.

Seu Garcia, no auge dos seus 86 anos de idade, estava lançando junto com seu filho um negócio para o mercado: jogo de tabuleiro para ensinar tabuada as crianças. Uma árvore com sua raiz firme e galhos fortes, se preocupando com suas sementinhas. Assim caracterizo o Seu Garcia e seu desejo de contribuir com a educação infantil brasileira. Mas não para por aí. Seu Garcia me mostrou suas outras criações. Em cada fala, aquele sorriso no rosto e o olhar iluminado, ele sabia que estava fazendo a diferença. Não veio nesse mundo à toa, nem para deixar apenas uma marca, mas uma corrente: uma corrente de boas mudanças.

No dia 13 de janeiro de 2017, Seu Garcia deixou esse mundo. Sempre ficamos tristes com perdas, ainda mais de gente que temos muito afeto e admiração. Contudo, lembro das palavras do próprio Seu Garcia: “não quero morrer antes de morrer, e sim quando chegar a hora certa.” E assim foi a vida do Seu Garcia: cada dia uma oportunidade. Cada dia ensinando e surpreendendo as pessoas sobre a coragem e a beleza de viver.

Conhecendo quem foi Seu Garcia, uma pessoa como a gente, que viu na sua rotina a possibilidade de sonhar mesmo diante da complexidade e finitude da vida, percebo que podemos ser mais. A longevidade pode aflorar no ser humano, o que há de mais bonito em nossa essência: o uso dos nossos recursos internos (seja a criação de um negócio social, seja o oferecimento de uma palavra amiga) para o senso de coletividade.

Que tenhamos a sensibilidade de aprender com histórias e com o legado como o do Seu Garcia. Que tenhamos em algum espaço do nosso ser, uma oficina de criatividade como a do Seu Garcia. Que também sejamos pessoas “tabuadas”, multiplicando boas ações. E que não tenhamos medo de arriscar, de fazer a diferença, de ser uma cabeça branca diante de tantas coloridas.

Autora: Tássia Chiarelli, gerontóloga e mestra em Gerontologia.

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