Como os relacionamentos estão mudando nos últimos anos
Foto: Magnific

Os relacionamentos passaram por mudanças importantes nos últimos anos. A tecnologia, os aplicativos de encontros, novas expectativas sobre compromisso e maior autonomia individual alteraram a maneira como as pessoas conhecem potenciais parceiros.

A transformação, porém, vai muito além dos aplicativos. A idade para casar aumentou, diferentes formatos de relacionamento ganharam visibilidade e as pessoas passaram a discutir mais abertamente temas como expectativas, limites, estabilidade emocional e compatibilidade.

Os dados disponíveis mostram que não existe uma única maneira de se relacionar atualmente. Enquanto algumas pessoas procuram relacionamentos duradouros, outras preferem encontros sem compromisso ou simplesmente desejam conhecer novas pessoas antes de decidir o que querem.

O relacionamento começa antes do primeiro encontro

Durante muito tempo, conhecer alguém dependia principalmente de círculos sociais próximos. Escola, faculdade, trabalho, festas, bares, amigos em comum e ambientes frequentados regularmente eram alguns dos principais caminhos para novas conexões.

Hoje, uma pessoa pode conhecer potenciais parceiros sem necessariamente compartilhar o mesmo ambiente social. Perfil, fotografias, interesses, localização aproximada e algumas informações pessoais passaram a funcionar como uma espécie de primeira apresentação.

Uma pesquisa do Pew Research Center realizada com 6.034 adultos nos Estados Unidos mostrou que 30% dos adultos já haviam utilizado algum site ou aplicativo de relacionamento. Entre pessoas com menos de 30 anos, a proporção chegava a 53%.

O estudo também mostrou que 10% dos adultos que estavam em relacionamentos haviam conhecido o atual parceiro por meio de um aplicativo ou site de relacionamento. Entre pessoas de 18 a 29 anos que estavam em relacionamentos, essa proporção chegava a 20%.

Os números são dos Estados Unidos e não devem ser tratados como uma representação direta do comportamento brasileiro. Ainda assim, ajudam a dimensionar uma transformação internacional na maneira de iniciar relacionamentos.

Aplicativos aumentaram as possibilidades, mas também mudaram as expectativas

Antes da popularização dessas plataformas, conhecer novas pessoas dependia principalmente das oportunidades existentes no cotidiano. Com os aplicativos, o contato inicial pode acontecer com dezenas ou centenas de perfis em um período relativamente curto.

O Pew Research Center identificou que 37% dos adultos norte-americanos consideravam que havia opções demais nos aplicativos de relacionamento, enquanto 43% avaliavam que a quantidade de opções era adequada. Apenas 13% disseram que havia poucas opções.

A pessoa pode conversar com alguém, interromper o contato, conhecer outra pessoa e eventualmente retomar uma conversa anterior. O início de um relacionamento deixou de ser necessariamente um processo linear.

A psicóloga Amie Gordon, da Universidade de Michigan, destaca justamente como ainda existem lacunas importantes na compreensão científica sobre a formação dos relacionamentos. Segundo ela, pesquisadores ainda não conseguem prever de maneira confiável se determinado casal permanecerá junto ou se separará.

A própria pesquisa do Pew mostra que apenas 21% dos adultos acreditavam que os programas utilizados por aplicativos poderiam determinar se duas pessoas acabariam se apaixonando. Outros 35% discordavam e 43% não tinham certeza.

O namoro ficou mais personalizado

Nem todos entram em aplicativos ou encontros com o mesmo objetivo. Alguns procuram casamento, outros querem um relacionamento, enquanto há quem prefira conhecer pessoas sem estabelecer inicialmente uma expectativa de compromisso.

A pesquisa do Pew Research Center identificou que 24% dos usuários de aplicativos apontavam o sexo casual como uma das principais razões para utilizar essas plataformas. Entre homens que haviam utilizado um aplicativo no ano anterior, a proporção era de 31%, contra 13% entre as mulheres.

Isso não significa que os aplicativos tenham transformado todos os relacionamentos em encontros casuais. Pelo contrário. Os mesmos dados mostram que a procura por relacionamentos duradouros continua sendo uma motivação importante.

O Bumble, por exemplo, informou em sua pesquisa global de tendências para 2025 que 85% dos membros pesquisados buscavam compromisso, definido pela empresa como casamento ou relacionamento. A pesquisa foi realizada com mais de 41 mil membros da plataforma, entre 18 e 35 anos, em diferentes países.

O problema não está necessariamente em querer algo casual ou algo duradouro. O desafio está em alinhar expectativas entre as pessoas envolvidas.

A comunicação sobre expectativas ganhou importância

Em relacionamentos contemporâneos, falar sobre intenções se tornou mais relevante. Termos como relacionamento sério, casual, ficante, exclusividade e compromisso passaram a aparecer com frequência nas conversas sobre vida afetiva.

Essa necessidade de definição está relacionada à maior variedade de possibilidades. Quando existe apenas um modelo socialmente esperado, as regras parecem mais claras. Quando existem diversos modelos possíveis, torna-se necessário conversar sobre o que cada pessoa espera.

A pesquisa de tendências do Bumble para 2025 mostra justamente essa preocupação. Segundo o levantamento, 59% das mulheres pesquisadas valorizavam mais a estabilidade e procuravam alguém emocionalmente consistente, confiável e com objetivos claros.

Ao mesmo tempo, 95% dos solteiros pesquisados disseram que preocupações relacionadas ao futuro, como dinheiro, segurança profissional, moradia e mudanças climáticas, influenciavam a maneira como se relacionavam.

Isso demonstra que relacionamentos não acontecem isoladamente. Questões financeiras, profissionais e sociais também entram na avaliação de possíveis parceiros.

O romance não desapareceu, mas mudou de formato

Uma interpretação comum sobre os relacionamentos modernos é que a tecnologia teria eliminado o romantismo. Os dados mais recentes não sustentam necessariamente essa conclusão.

O estudo global do Bumble aponta uma tendência chamada de “micro-romance”, baseada em pequenas demonstrações de afeto. Entre os participantes pesquisados, 86% concordaram que a maneira de demonstrar carinho passou a incluir atitudes menores, como enviar memes, compartilhar playlists ou piadas internas.

A mudança, portanto, pode estar menos relacionada ao desaparecimento do romance e mais à transformação de sua linguagem. Uma mensagem durante o dia, uma referência a uma conversa anterior ou o compartilhamento de algo que lembre a outra pessoa podem adquirir importância.

O mesmo levantamento identificou que 41% dos solteiros pesquisados valorizavam conteúdos sobre relacionamentos que mostravam experiências mais autênticas, incluindo dificuldades e momentos positivos.

A vida afetiva também passou a ser discutida publicamente nas redes sociais. Vídeos, relatos, podcasts e conteúdos sobre encontros criaram uma espécie de cultura de observação do namoro. As pessoas não apenas vivem suas experiências afetivas, mas também acompanham as experiências de outras pessoas.

A idade para casar também está mudando

As transformações não estão restritas ao início dos relacionamentos. No Brasil, os dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística mostram que o casamento civil também acontece mais tarde.

Em 2024, homens solteiros que se casaram com mulheres tinham idade média de 31,5 anos. Entre as mulheres solteiras que se casaram com homens, a média foi de 29,3 anos.

A comparação histórica é ainda mais significativa. Em 2004, essas médias eram de 27,8 anos para os homens e 24,9 anos para as mulheres. Ou seja, em duas décadas, a idade média do primeiro casamento entre pessoas solteiras aumentou consideravelmente.

O próprio IBGE aponta que o aumento da idade pode estar relacionado ao adiamento da decisão pelo casamento civil e ao crescimento dos recasamentos.

A especialista do instituto Klívia destacou que “a ampliação da idade ao se casar pode estar relacionada ao adiamento da decisão pelo casamento civil e ao aumento do número de recasamentos”.

Outro dado ajuda a entender essa transformação. Em 2024, o Brasil registrou 948.925 casamentos, sendo 12.187 entre pessoas do mesmo sexo.

O número de casamentos entre pessoas do mesmo sexo cresceu 8,8% em relação ao ano anterior, atingindo o maior número registrado desde o início da série em 2013. Os dados mostram, portanto, que a instituição do casamento continua existindo, mas ocorre em um contexto social diferente.

O crescimento dos recasamentos também mudou o cenário

Relacionamentos modernos também são influenciados por histórias anteriores. Em 2024, 31,1% dos casamentos civis entre pessoas de sexos diferentes no Brasil envolveram pelo menos um cônjuge divorciado ou viúvo. Em 2004, essa participação era de 13,5%.

Isso representa uma mudança importante na trajetória afetiva de parte da população. Casamento e relacionamento deixaram de ser necessariamente acontecimentos únicos na vida adulta. Para muitas pessoas, existe uma sequência de relacionamentos, separações, novos encontros e eventualmente novos casamentos.

O papel de um coach de encontros casuais no relacionamento moderno

Dentro desse novo cenário aparece um mercado de profissionais que produzem conteúdo e oferecem orientação sobre relacionamentos, encontros e comportamento social. Um exemplo nesse contexto é Murilo Costa, coach de encontros casuais para homens e mulheres e fundador do Casual Brasil.

Murilo Costa é natural de Geribá, em Búzios, e trabalha como nômade digital, viajando pelo Brasil enquanto produz conteúdo para a internet sobre relacionamentos modernos. Sua atuação exemplifica uma tendência mais ampla: a transformação do relacionamento em um assunto que também pode ser estudado, discutido e acompanhado por meio de conteúdo digital.

O interesse por esse tipo de orientação acompanha a complexidade crescente do processo de conhecer alguém. Não se trata apenas de encontrar uma pessoa. Existem dúvidas sobre como iniciar uma conversa, como interpretar intenções, como estabelecer limites e como lidar com diferentes expectativas.

Nesse sentido, profissionais de relacionamento passaram a ocupar um espaço semelhante ao de outros criadores especializados em comportamento. É importante, entretanto, separar orientação de promessas. A ciência dos relacionamentos ainda apresenta muitas questões sem respostas definitivas.

Mais opções também significam mais responsabilidade

O Pew Research Center encontrou experiências bastante diferentes entre usuários de aplicativos. Cerca de metade dos usuários avaliava sua experiência de maneira positiva, mas 48% relataram ter enfrentado pelo menos um comportamento indesejado investigado pela pesquisa, incluindo mensagens ou imagens sexuais não solicitadas, contato insistente, ofensas ou ameaças físicas.

O levantamento também mostrou uma divisão praticamente equilibrada sobre a segurança dos aplicativos: 48% dos adultos norte-americanos consideravam essas plataformas muito ou razoavelmente seguras para conhecer pessoas, enquanto 49% avaliavam que não eram muito ou nada seguras.

Isso reforça a importância de respeito, consentimento, privacidade e limites nas interações. A tecnologia mudou o caminho até o encontro, mas não eliminou a necessidade de comportamento responsável.

Relacionamentos mais flexíveis, mas não necessariamente mais simples

Hoje, relacionamento não precisa começar obrigatoriamente por meio de amigos, trabalho ou encontros presenciais. Pode começar em um aplicativo, em uma rede social, em uma comunidade baseada em interesses ou até em uma conversa casual durante uma viagem.

O levantamento do Bumble mostra que interesses específicos também ganharam relevância. Cerca de 46% dos solteiros pesquisados disseram que interesses únicos ou incomuns eram importantes para a atração. A empresa também identificou o crescimento de microcomunidades, como clubes de corrida e leitura, como espaços que podem influenciar novas conexões.

Isso aponta para uma mudança interessante. Em vez de procurar somente características tradicionais em um possível parceiro, algumas pessoas estão dando mais importância à compatibilidade de interesses, valores e estilo de vida. A escolha pode começar pela aparência, mas não termina necessariamente nela.

O que esperar dos relacionamentos nos próximos anos

Aplicativos continuarão fazendo parte da maneira como as pessoas conhecem outras pessoas, mas o comportamento dentro dessas plataformas tende a mudar conforme os usuários se tornam mais conscientes sobre seus próprios limites e objetivos.

Também é provável que a conversa sobre intenção ganhe ainda mais espaço. Quanto maior a variedade de modelos de relacionamento, maior a necessidade de comunicação clara.

A tecnologia pode apresentar pessoas, ampliar círculos sociais e facilitar o primeiro contato. Mas pesquisas acadêmicas ainda mostram que não existe um método capaz de prever com segurança quais pessoas formarão relacionamentos duradouros.

Essa talvez seja uma das conclusões mais importantes sobre o relacionamento moderno. As ferramentas mudaram muito. O comportamento também. Mas conhecer alguém continua sendo uma experiência humana complexa, influenciada por contexto, personalidade, interesses, circunstâncias e escolhas que nenhum aplicativo consegue antecipar completamente.

O relacionamento contemporâneo, portanto, não está simplesmente ficando mais casual ou mais sério. Ele está ficando mais diverso. A grande mudança dos últimos anos está justamente nessa possibilidade de escolha e na liberdade para construir diferentes trajetórias afetivas.

Share.