
Dirigir pode ser uma experiência prazerosa ao sentir a resposta do motor, dominar a via e acompanhar a paisagem. No entanto, o comportamento no trânsito caótico de muitas cidades brasileiras transforma essa atividade em um desafio diário marcado pelo fluxo lento e carregado.
O maior problema nem sempre são os congestionamentos por si só. A situação piora quando determinados condutores ignoram regras básicas de convivência e demonstram falta de empatia com os demais.
O desrespeito às regras de convivência
Pequenos deslizes cometidos por engano acontecem e são compreensíveis. A questão reside nos motoristas que deliberadamente desrespeitam os princípios sociais de segurança.
São condutores que colam na traseira do veículo da frente, ignoram faixas de pedestres e ocupam indevidamente vagas reservadas para idosos, gestantes e pessoas com deficiência.
Além disso, utilizam o farol alto de forma incorreta, acendem luzes de neblina sem necessidade e deixam de sinalizar manobras essenciais antes de mudar de faixa.
Infrações frequentes nas vias urbanas
O uso desmedido da buzina e do pisca-alerta tornou-se hábito para muitos. Trafegar pelo acostamento e se posicionar mal na hora de entrar ou sair das vias principais também são atitudes recorrentes.
Muitos ignoram a sinalização horizontal, dirigem acima ou muito abaixo dos limites de velocidade, param em fila dupla e bloqueiam os cruzamentos, prejudicando o fluxo de todos.
A diferença entre erro e intenção
Quem roda grandes distâncias diariamente observa nitidamente esse tipo de postura nas ruas. Quando o motorista demonstra apenas falta de intimidade com o veículo ou desconhecimento da rota, trata-se de um erro involuntário.
Esses casos sem intenção representam a minoria. A maioria dos problemas decorre de decisões conscientes de desrespeito às normas viárias.
A visão da sociossemiótica sobre o tráfego
Recebi por estes dias um artigo, enviado por Mauri Oliveira, que é Pesquisador do Centro de Pesquisas Sociossemióticas da PUC-SP, que analisa o trânsito como um produto do comportamento humano. “Parto da ideia de que o engarrafamento não é somente excesso de carros, mas também excesso de impaciências: entre motoristas, pedestres, sistemas inteligentes e projetos urbanos”, diz o autor, que vê nas “impaciências”, as razões dos conflitos nossos de cada dia. “No engarrafamento, o outro não aparece como alguém que compartilha um destino, mas como ameaça ao pequeno avanço conquistado. Um metro à frente vira vitória; uma fechada vira ofensa”, relata.
O mito da troca de papéis
Por um tempo, existia a ideia de que o cenário mudaria se cada condutor experimentasse a rotina do outro por um dia, alternando entre carro, moto e caminhão.
A intenção seria fazer com que compreendessem as dificuldades alheias, como a distância de frenagem de uma motocicleta ou os pontos cegos de um veículo grande.
Contudo, fica evidente que vivenciar outras realidades não traz resultados práticos se as pessoas não estiverem dispostas a mudar a própria postura.
O conceito CHA aplicado à segurança viária
Lembro do dia em que conversando com o especialista em segurança viária e veicular José Aurelio Ramalho, do ONSV (Observatório Nacional de Segurança Viária), entendi o porquê da minha desilusão. Ramalho me falou do conceito CHA (Conhecimento, Habilidade e Atitude) usado por gestores de RH no desenvolvimento de pessoas. “A maioria da sociedade tem ‘Conhecimento’ sobre as regras, assim como ‘Habilidade’ para executá-las. O que é decisivo para uma ocorrência de trânsito ou não é a ‘Atitude’”, disse o especialista do ONSV.
Um prejuízo coletivo diário
No final do dia, todos perdem no trânsito: prazer, tempo, paciência, saúde, dinheiro. Mesmo quem pensa que ganhou, como aponta o pesquisador da PUC-SP.